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16 de Setembro de 2019

Amanhã, quando sair de casa, repense o que você pensa sobre drogas

Violência é causada por desigualdade social e pobreza

Gerivaldo Neiva, Juiz de Direito
Publicado por Gerivaldo Neiva
há 5 anos

Amanhã, quando sair de casa, observe quantas drogarias existem em seu bairro e fique a pensar que se trata de uma empresa privada, que garante emprego a várias pessoas e recolhe vultosos impostos ao estado. Verá, por exemplo, a Drogaria São Paulo, Santa Teresa, Santa Marta, Santana, Carrefour, Popular, Do povo, Menor Preço, Mais Barata, Droga Life, Drogas Mall, Extra, Gbarbosa, Bom Preço e tantos outros nomes.

Lembre-se, em seguida, que os produtos vendidos neste tipo de comércio são cercados de cuidados, inclusive com faixa em cores distintas (livra-me dos tais tarja preta!) para indicar o grau de periculosidade e, mais ainda, alguns desses produtos só podem ser vendidos com a comprovação de ter sido indicado por um profissional da medicina. Por fim, não custa lembrar, que cada caixa desses produtos contém uma “bula” contendo tantas informações em letras microscópicas que você não consegue ler. Aliás, quando consegue ler a parte que indica os efeitos colaterais e contra indicações, você não se sente mais assim tão seguro em usar aquela droga.

Mais adiante, você não pode esquecer-se disso, pense que os produtos vendidos naquele comércio, se usados com abuso ou sem orientação médica, podem causar dependência química, doenças, morte ou deixar sequelas terríveis no usuário.

No dia seguinte, quando sair de casa, enquanto estiver parado com seu carro atrás de um caminhão distribuidor de cerveja, observe quantos botecos, bares e depósitos de bebidas existem em seu bairro e fique a pensar que se tratam também de pequenas empresas privadas, que garante emprego a várias pessoas e recolhe também vultosos impostos.

Lembre-se, em seguida, que naqueles estabelecimentos comerciais se comercializa diversos produtos à base de álcool e com várias graduações: cerveja, uísque, vodca, vinho, cachaça...

Mais adiante, você também não pode esquecer-se disso, pense que os produtos vendidos naquele comércio, se usados com abuso, podem causar dependência química, vários tipos de câncer e morte do usuário. Além disso, lembre-se sempre, mesmo que não seja o caso de sua família, que o dependente de álcool causa um grande desconforto para os amigos, familiares, comunidade e saúde pública.

Para que você sinta a força apelativa desse comércio, pense em todas as noites, depois de um dia extenuante de trabalho, ao lado da esposa ou dos filhos, diante da televisão, ao assistir um comercial fantástico de bebidas alcóolicas, cheio de vida e alegria, em quantas vezes você não teve vontade de ceder à tentação e “tomar uma” ainda no meio da semana. Tipo: “deu duro, tome um, dreher”!

Terminada a árdua semana de trabalho, passeando no shopping com a família no domingo, chama-lhe atenção o requinte da tabacaria que exala um aroma gostoso de café misturado com fumos aromáticos. Ninguém usa tabaco naquele ambiente, mas o olhar e expressão das pessoas que compram charutos, tabaco selecionado e com diversas misturas, é de puro êxtase. Em casa, loucos que estão para chegar, viverão momentos de muito prazer. A fumaça do charuto cubano, depois de navegar pelos pulmões, vai formar imagens psicodélicas no vazio e suas lembranças navegarão naquelas formas que mudam ao sabor do menor movimento. O fumante viverá momentos que nenhuma outra substância ou experiência poderia lhe proporcionar e de nada adiantará o aviso na embalagem de que o tabaco poderá causar problemas à sua saúde.

Passeando ainda no shopping, você apenas vai lamentar que os “viciados” em tabaco são uns inconsequentes, pois todos sabem que o tabaco pode lhe causar diversos tipos de câncer, levando embora boa parte do orçamento do Ministério da Saúde, mas mesmo assim continuam fumando e se matando. E o que é pior: matando a si e aos que sofrem passivamente as consequências do tabaco.

Depois de tudo isso, melhor tomar um chopp para distrair e petiscar aquelas coisinhas que engordam e causam mal à saúde, mas que são irresistíveis. Assim, enquanto você saboreia aquele chopp de 500 ml, com colarinho médio e bem gelado, abre o jornal e, confortado e se sentindo mais seguro, lê a notícia de que a polícia matou, em heroico confronto, dois perigosos traficantes de maconha em um bairro da periferia de sua cidade. Tinham 17 e 18 anos de idade, negros, pobres, periféricos, sem profissão e estudaram até a terceira série do ensino fundamental.

Entre um gole de chopp e outro, ao refletir minimamente sobre a história dos traficantes perigosos mortos pela polícia e dos prósperos comerciantes de drogas lícitas, talvez você consiga se perguntar por que uns se tornaram homens honestos e outros se tornaram usuários de maconha e depois começaram a vender pequenas quantidades para manter a dependência ou para sobreviverem. Entre um gole e outro, poderá pensar nas oportunidades oferecidas ou na falta delas para uns e para outros; nas tragédias pessoais e familiares para uns e para outros, ou seja, da própria vida que levaram ou que lhes foi oferecida.

Entre um petisco e outro, talvez você consiga pensar agora que as drogas lícitas distribuídas por comerciantes honestos passaram apenas pelo crivo do imposto exagerado e que a maconha que vendiam os perigosos traficantes (?) subiu ao morro com a conveniência ($) da banda podre da própria polícia e que seria distribuída para jovens do asfalto, que estacionariam carros de luxo em locais previamente ajustados e que fumariam a maconha na balada do final da semana com outros amigos. Assim, talvez agora você entenda que da mesma forma que usuários de outras drogas consideradas lícitas, uns desses rapazes continuariam usando apenas em baladas e outros, por conta de sua própria história pessoal, continuariam usando diariamente e poderão vir a causar problemas à sua família e seus amigos.

Ao pedir o segundo chopp, talvez agora você consiga entender que as drogas vendidas na drogaria da esquina; que as bebidas vendidas no depósito de bebida e que o tabaco vendido na tabacaria ali bem perto, são todas drogas que se forem usadas sem prescrição médica ou sem moderação, sem dúvidas, levam à morte do usuário e causam graves problemas às suas famílias e à saúde pública. Por fim, chegará à conclusão de que a maconha e outras drogas consideradas ilícitas também podem causar dependência e problemas à saúde do usuário, mas você continuará sem entender (será?) por que a polícia, nesta guerra absurda, prende ou mata e o sistema de justiça criminal condena apenas a juventude pobre que vende maconha, cujo uso causa bem menos problemas do que o álcool e o tabaco, conforme constatado por pesquisas científicas.

Ao levantar a tulipa do último chopp para o gole final, penso que você ainda estará em condições de questionar por que o fabricante dos produtos da drogaria, do depósito de bebidas e da tabacaria são apenas industriais ou comerciantes que empregam e recolhem impostos, mas o jovem que distribui maconha para ganhar uns trocados ou manter sua dependência é um bandido perigoso.

Se dois chopps e alguns petiscos, no espaço confortável e seguro do shopping, ainda não foram suficientes para descortinar a fumaça que lhe embaça a visão sobre o assunto “maconha” e suas opiniões continuam inabaláveis como tabus eternos, amanhã continue observando, enquanto enfrenta o trânsito louco de sua cidade, as drogarias, depósitos de bebidas e tabacarias e refletindo sobre as consequências do uso normal ou abusivo dessas drogas e ouvindo notícias no rádio do seu carro, com o ar condicionado no máximo e película protetora em 75%, de que a polícia, em heroico confronto, teria matado mais dois perigosos traficantes de maconha. Ao final de sua viagem, entenda, por fim, que não são as drogas ilícitas a causa da violência que lhe assusta em seu trajeto de casa para o trabalho, mas permita-lhe entender que a violência que lhe apavora é apenas a consequência da realidade cruel do lado de fora do seu carro, da desigualdade social e da pobreza, assim como o uso de drogas, lícitas ou ilícitas, é apenas a consequência da história pessoal de cada um.

61 Comentários

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Mais uma vez, texto irretocável.

Como é bom ver que ainda há juízes corajosos e questionadores, dá-me um segundo de confiança no estado de direito. continuar lendo

Parabéns ao autor do artigo, pois estimula o debate de um grave problema social que a sociedade enfrenta: drogas. De fato, toda droga é prejudicial à saúde humana, seja ela lícita ou ilícita.

Segundo o Jornal inglês "The Lancet Medical Journal", o ranking das drogas de acordo com o dano causado é o seguinte:

1-) Heroína;
2-) Cocaína;
3-) Barbitúrico;
4-) Metadona;
5-) Álcool;
6-) Ketamina;
7-) Benzodiazepínico;
8-) Anfetamina;
9-) Tabaco;
10-) Buprenorfina;
11-) Maconha.

Obs: A fonte da citação que faz referência à pesquisa sobre a nocividade das drogas é: Revista Domínios - XV - 162 - Nov/Dez. 11 - página 36.

Baseado nessa pesquisa, a conclusão razoável é a de que TODAS as drogas deveriam ser proibidas, inclusive o álcool e o cigarro. continuar lendo

Norberto, proibir tudo é a melhor escolha? Dê uma lida nos efeitos criados pela proibição do álcool nos EUA, onde com essa proibição foi "criado" nada mais nada menos que o senhor Al Capone, a tal máfia do álcool ilegal, que com os milhões arrecadados comprava essa parte corruptível da polícia e dos políticos.
Nem com criança funciona proibir, imagine com adultos..
Fica a dica da Leitura! continuar lendo

Sr. Giovani, o que o sr. recomenda é permitir a distribuição de drogas que causam dependência química nas pessoas e que degradam a saúde da população????

Se existem estudos científicos que comprovam que álcool e o cigarro são prejudiciais à saúde das pessoas então por que permitir sua venda??

O receio de surgir o novo "Al Capone" não é justificativa razoável para liberar a venda de drogas que destroem a saúde do povo.

Recomedo a leitura de estudos científicos que atestam os efeitos das drogas, inclusive álcool e cigarro. Fica a dica de leitura. continuar lendo

Caro Norberto,
Considero pertinentes suas observações, mas gostaria de opor, se permitir, mais uma informação: tenho lido que a droga a causar mais dependência e danos a saúde humana seria, na verdade, o açúcar!
Diante de suas sugestões, consideraria, portanto, igualmente adequado propor a proibição do açúcar, haja vista esse causar ainda mais prejuízos que todas as drogas citadas?
Quero mostrar que o discurso absoluto, tanto da liberação quanto da proibição, podem esconder desatinos.
Acredito que a melhor solução estaria no meio termo, no uso da regulação e, talvez, da proibição de algumas drogas mais perigosas, mas que são menos consumidas; tentando-se adequadar os ímpetos de liberdade individual com a necessidade de preocupação com a saúde pública, sem escamotear a realidade. continuar lendo

Qualquer comentário aqui descrido, será desnecessário, pois o texto diz "tudo" e mais um pouco. Tem muito mais em sua entrelinhas. continuar lendo

Com certeza, e o melhor de tudo isso, é que é o próprio sistema que fornece todo esse espetáculo. continuar lendo

Um dia conseguirei expressar meus pensamentos duma forma assim, clara, convincente e evolutiva.
Parabéns...
Viva à leitura e menos novelas... continuar lendo

Sempre uma leitura crítica Odinei!
Neste artigo concordo sem restrições com o juiz. continuar lendo